Belo Horizonte, Brasil, julho de 2016 26 anos e três meses sem existir. Um ano e 10 meses existindo. Três adolescentes drogados em uma tentativa de assalto... apenas um tiro disparado. 680 dias que Edward Mamo viveu o sonho de construir uma vida nova no Brasil.

Nas falas, com abismos de silêncio, Maha Mamo desabafa. “Ele nasceu apátrida e faleceu apátrida... quando aconteceu, já estávamos no meio do caminho, éramos reconhecidos como refugiados... já foi um passo bem grande... Então... como eu acredito em Deus, sei que ele, mesmo em casa, dormindo na cama... iria morrer. Então a missão dele nesse Terra já acabou. Não tem como mudar, trocar e nem nada”.

Para ela, a história virou outra, e esperar de 15 a 20 anos por uma nacionalidade, não faz mais parte dos seus planos. Mesmo feliz, vivendo uma vida que nunca teve no Líbano, ainda não pertence oficialmente a nenhum lugar.

“Agora quero a minha nacionalidade, depois quero viver a minha vida.”

 

A preocupação também aumentou com a pressão dos pais, que mesmo sabendo do apoio e do cuidado dos amigos que Maha encontrou no Brasil, sempre chegavam com a mesma pergunta: “quando vocês vão ter os documentos com nacionalidade?”.

 

“A gente não pensava que ia ser um processo tão demorado...”

“Uma vez, mandei a Coco para lá, ela foi, gravou tudo e eu falei ‘um dia vamos juntas!’. O meu personagem favorito é o Mickey Mouse.”

Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), Registro Nacional de Estrangeiros (RNE), Carteira Nacional de Habilitação (CNH), o Passaporte para Estrangeiro (somente para viagens da ONU), e os diplomas, ainda, sem validade. É tudo que Maha traz na bagagem para comprovar sua existência.

A problematização no Oriente Médio vai muito além das falhas na proteção à população civil e o desastre sistemático das instituições para validar o Direito Internacional. Para os que ficam em território de guerra, resta apenas a privação da ajuda humanitária, os ataques e os bombardeios, além dos abusos sofridos.

Para Manuel Nabais da Furriela, diretor da Escola de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e presidente da Comissão de Direito do Refugiado, do Asilado e da Proteção Internacional da Secional, ainda existe uma disputa de poder, território e política interna, que atinge a maioria da população.

 

“O refúgio por si só já é um remendo. O Brasil tem um papel importante em receber quem está sendo perseguido, mas a grande solução para o problema do refúgio está nas organizações internacionais, como a ONU, em se organizarem para pressionar e tentar resolver os problemas nesses países e Estados de origem.”

 

Segundo o ACNUR, até o final de 2015, mais de 65,6 milhões de pessoas foram deslocadas forçosamente, por perseguição, conflito, violência ou violações de direitos humanos.

 

Nas fronteiras e nos campos de refugiados, a cada 10 minutos uma criança nasce apátrida por consequência da morte do pai durante a guerra, ou pela falta de documentação da mãe no momento do registro.

Crianças que seguirão com as mesmas dúvidas dos irmãos Mamo.

 

"Lá no Líbano você segue o seu pai, não tem escolha. Então crescemos como cristãos católicos. Mas sempre teve essa confusão na minha vida, que o problema inicial é a religião... então eu estudava o islã e o cristianismo. Hoje, eu acredito em Deus, mas não tenho uma religião, pois religiões só trazem problemas, né? Tudo é poder e dinheiro”, Maha.

 

Se Maha e Souad forem reconhecidas como brasileiras, ganharão uma nacionalidade derivada, por não serem originárias do Brasil. Exatamente o que esperam para o próximo ano.

 

Apesar da longa jornada de perdas e lágrimas, a jovem carrega um sonho de infância: visitar a Disneyland Francesa. Nostálgica, conta como foi visitar pelos olhos da amiga Nicole (Coco).

Belo Horizonte, Brasil, outubro de 2017 – mais madura e independente, Maha vive, desde setembro, com a irmã Souad, logo após sair do emprego no interior de São Paulo. “Hoje estou com esse confusão comigo mesma. Acho que estou em busca da felicidade”.

A vontade de decolar e subir cada vez mais alto faz parte do plano de viajar e mudar o mundo – incluindo realizar trabalho voluntário em outros países.

Com a voz firme, Maha fala por aqueles que não podem, nas palestras como embaixadora da campanha #IBELONG do ACNUR, que luta pela erradicação da apatridia no mundo; viajando para países como: Curaçao, Equador, Trinidad e Tobago, Suíça, Panamá e Argentina.

São três anos e dois meses existindo, mas ainda à espera da nacionalidade.